"Ela fala 'telo' no lugar de 'quero'. Isso é normal?"
Toda mãe já ouviu o filho falar algo parecido com "eu telo água", "o patato caiu" ou "a faca é da titinha". E no começo até é fofo — a gente repete, ri, acha graça.
Mas quando isso não melhora, quando a criança já está crescendo e ainda faz as mesmas trocas, a dúvida bate: isso é fase ou é um problema de fala?
A boa notícia é que a fonoaudiologia tem respostas muito claras sobre isso. Existe uma trajetória esperada para o desenvolvimento dos sons da fala, e é possível saber — com precisão — se uma troca é adequada para a idade ou se já passou do ponto em que deveria desaparecer.
Neste artigo, vou te explicar o que são as trocas fonológicas, como funciona essa trajetória e quando é hora de buscar avaliação.
O que são trocas na fala infantil?
As trocas na fala são chamadas tecnicamente de processos fonológicos — simplificações que a criança usa enquanto ainda está aprendendo a produzir todos os sons da língua portuguesa.
Produzir sons é uma habilidade motora e cognitiva complexa. A criança precisa aprender a posicionar língua, lábios, dentes e palato de formas diferentes para cada fonema — e isso leva tempo.
Durante esse processo de aprendizagem, é natural que ela simplifique: troca sons mais difíceis por outros mais fáceis, omite sílabas, reduz grupos consonantais. Isso não é erro — é o sistema em construção.
O problema acontece quando esses processos não desaparecem no tempo esperado.
Os tipos mais comuns de trocas
Substituição de sons (processos de substituição)
A criança troca um som por outro:
- "telo" no lugar de "quero" → troca do /k/ pelo /t/
- "dade" no lugar de "grade" → simplificação de grupo consonantal
- "faca" no lugar de "vaca" → troca de sonora por surda
- "lato" no lugar de "rato" → troca do /r/ pelo /l/
- "nabio" no lugar de "navio" → troca de fricativa
Omissão de sons ou sílabas
A criança omite partes da palavra:
- "pato" no lugar de "prato" → omissão do /r/ em grupo consonantal
- "bola" dito como "boa" → omissão do /l/
- "borboleta" dito como "boboleta" → omissão de sílaba
Reduplicação
A criança repete sílabas em vez de produzir a palavra completa:
- "mamã" no lugar de "mamãe"
- "babá" no lugar de "banana"
Esse processo é esperado em bebês e desaparece cedo — geralmente antes dos 2 anos.
Quando cada troca deveria desaparecer?
Essa é a parte mais importante do artigo. A fonoaudiologia tem marcos esperados para a aquisição de cada som da língua portuguesa.
Até os 3 anos — ainda esperado
- Omissão de consoante final ("bolo" → "boo")
- Simplificação de grupos consonantais ("prato" → "pato")
- Reduplicação de sílabas
- Troca de /lh/ por /i/ ("filho" → "fio")
- Troca de alguns sons fricativos
Dos 3 aos 4 anos — zona de atenção
- Troca de /k/ por /t/ ("quero" → "tero") deve estar desaparecendo
- Troca de /g/ por /d/ ("gato" → "dato") deve estar desaparecendo
- Omissões de sílabas átonas devem estar reduzindo
Dos 4 aos 5 anos — já deveria estar resolvido
- A maioria das substituições simples deve ter desaparecido
- A criança deve produzir corretamente a maior parte dos sons
Dos 5 aos 7 anos — últimos sons a se consolidar
- /r/ em posição inicial e medial ("rato", "caro")
- /l/ em final de sílaba ("sol", "mel")
- Grupos consonantais complexos ("planta", "gritar")
⚠️ Esses marcos são referências gerais baseadas na literatura fonoaudiológica para o português brasileiro. Cada criança tem seu ritmo, mas desvios consistentes além dessas faixas merecem avaliação.
Sinais de que as trocas já passaram do esperado
Procure avaliação fonoaudiológica se:
- As trocas persistem além da faixa etária esperada para aquele som específico
- Pessoas de fora da família têm dificuldade de entender a criança — sinal importante, pois os pais tendem a se adaptar à fala do filho
- A criança apresenta muitas trocas ao mesmo tempo, comprometendo a inteligibilidade geral
- A criança já tem 5 anos ou mais e ainda faz trocas consistentes
- A criança evita falar em situações sociais por conta das trocas — pode indicar impacto emocional e social
- A criança já percebe que fala diferente e demonstra frustração, vergonha ou recusa em falar
- As trocas não melhoram mesmo com o tempo passando
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Fazer o teste agora →Trocas na fala e escola: um ponto importante
Quando a criança entra na pré-escola e no fundamental I, a fala começa a ter impacto direto no aprendizado. Isso porque:
- Leitura e escrita dependem da consciência fonológica — a capacidade de perceber e manipular os sons da língua
- Crianças com processos fonológicos não resolvidos têm maior risco de dificuldades de leitura e escrita (dislexia, trocas ortográficas)
- A troca na fala pode virar troca na escrita: quem fala "telo" pode escrever "telo" no lugar de "quero"
Por isso, idealmente, as trocas fonológicas devem estar resolvidas antes da alfabetização — ou seja, antes dos 6 anos.
O que é avaliação fonológica e como funciona
Quando a criança chega ao consultório com queixa de trocas na fala, a fonoaudióloga realiza uma avaliação fonológica, que inclui:
- Anamnese detalhada — histórico de desenvolvimento, primeiras palavras, histórico familiar de dificuldades de fala ou aprendizagem
- Avaliação da fala espontânea — como a criança fala em situação natural de conversa e brincadeira
- Avaliação da fala dirigida — nomeação de figuras e repetição de palavras para mapear quais sons estão alterados e quais estão corretos
- Avaliação da consciência fonológica — capacidade de perceber, identificar e manipular os sons da língua
- Avaliação da compreensão — se a criança entende bem mesmo que produza de forma alterada
- Avaliação da motricidade orofacial — para verificar se há aspectos motores que contribuem para as trocas
Com base nessa avaliação, a fonoaudióloga identifica o perfil fonológico da criança — quais processos estão presentes, se são adequados para a idade ou não, e qual o plano terapêutico mais indicado.
Como é o tratamento fonoaudiológico para trocas na fala
A terapia fonológica é altamente eficaz e, na maioria dos casos, relativamente rápida quando iniciada no momento certo. O trabalho inclui:
- Estimulação dos sons alterados — atividades específicas para ensinar a criança a produzir os sons que ainda não domina
- Trabalho de consciência fonológica — para fortalecer a percepção auditiva dos sons e prevenir dificuldades futuras de leitura e escrita
- Generalização para a fala espontânea — garantir que o som aprendido seja usado na conversa do dia a dia, não apenas em atividades dirigidas
- Orientação para os pais — estratégias para reforçar o trabalho em casa sem criar pressão ou constrangimento para a criança
O que os pais não devem fazer em casa
- ❌ Não corrija repetidamente a fala da criança. "Não é TERO, é QUERO. Fala direito." Esse tipo de correção constante gera ansiedade, vergonha e pode aumentar a resistência para falar.
- ❌ Não imite a troca achando graça. Repetir "ai que fofo, ele fala tero" em frente à criança sinaliza que aquilo é aceitável — e pode reforçar o padrão errado.
- ❌ Não espere a escola corrigir. Professores não têm formação para tratar processos fonológicos — e a sala de aula não é o ambiente indicado para esse trabalho.
- ❌ Não adie achando que vai passar sozinho. Alguns processos passam com o tempo. Outros não. O custo de esperar pode ser dificuldade de aprendizagem na alfabetização.
O que você pode fazer em casa agora
- ✅ Ofereça o modelo correto sem pressionar. Quando a criança falar "telo água", responda naturalmente: "Você quer água? Aqui está a água." Sem corrigir diretamente — mas oferecendo o modelo certo.
- ✅ Leia histórias em voz alta com frequência. A leitura compartilhada é uma das formas mais eficazes de desenvolver vocabulário e consciência fonológica.
- ✅ Brinque com rimas e parlendas. "Hoje é dia de rei, amanhã é dia de lei" — brincadeiras com rimas ativam a consciência dos sons da língua de forma natural e divertida.
- ✅ Valorize a comunicação, não a forma. Responda ao conteúdo do que a criança diz, não à forma como disse. Isso mantém a motivação para falar.
Fontes e referências
- Wertzner HF. Fonologia: Desenvolvimento e Alterações. In: Ferreira LP, Befi-Lopes DM, Limongi SCO (org.). Tratado de Fonoaudiologia. São Paulo: Roca, 2004.
- Mota HB. Terapia Fonoaudiológica dos Desvios Fonológicos. Revinter, 2001.
- Lamprecht RR (org.). Aquisição Fonológica do Português: Perfil de Desenvolvimento e Subsídios para Terapia. Artmed, 2004.
- Gillon GT. Phonological Awareness: From Research to Practice. 2ª ed. Guilford Press, 2018.
- American Speech-Language-Hearing Association (ASHA) — Speech Sound Disorders: asha.org